Alberto Carneiro, CRP-32710/05 , Master's Degree in Clinical Psychology and e PhD ( in course) in Public Health (FIOCRUZ- Brazil) and internship at University of Windsor, Canadá.

Durante meu Mestrado tive contato com o Método de Explicação do Discurso Subjacente (MEDS), que em muito contribuiu para direcionar minha pesquisa de campo a respeito da homoparentalidade e acredito ser este um excelente método, por isso resolvi postar neste Blog.

Por ter um tema considerado ainda por muitos como “polêmico” e “delicado” é fundamental que eu mantenha um método de trabalho o mais isento possível a fim de obter bons resultados na pesquisa.

Para tanto, o “MEDS” parece ser a forma mais adequada de trabalho. Um mundo em constante mudança, não há possibilidade de não haver conflitos e por isso, iniciar este trabalho sem tecer hipóteses sobre um assunto que gera calorosos debates tanto no meio acadêmico quanto fora dele, é de vital importância.

Segundo este método, a língua que falamos, quando internalizada, traduz regras e valores do grupo social do entrevistado e ouvi-lo com atenção, por si só, já é um grande passo para se pesquisar um vasto material sem entrar necessariamente em teorias (e às vezes, justificam, na verdade, a chegada à hipótese que o “pesquisador” procura, veladamente ou não, defender) que explicariam a fala do entrevistado. Por isso, acredito que o MEDS deve ser usado em meu trabalho, uma vez que acredito que a forma de vermos o mundo é socialmente construída.

Um aspecto que me chamou atenção no MEDS foi a grande importância dada às entrevias-piloto e a forma destas, baseadas em conversas informais, já que se algo for importante para o participante, o tema aparecerá durante seu discurso.

Quanto aos objetivos do método, podemos citar o genérico e o específico.

O objetivo genérico seria o de ouvir com atenção o sujeito e deixá-lo falar da forma mais livre possível.

Os objetivos específicos são conhecer as crenças, opiniões etc destes sujeitos e trazer à tona possíveis conflitos e contradições em seu discurso.

Quanto a este ultimo, gostaria de me deter um pouco mais, pois me foi útil já na fase

embrionária de minha pesquisa.

Para identificar estes possíveis conflitos, lança-se mão de duas análises de discurso: a

interparticipantes e a intraparticipantes, onde a 1ª é usada comparar o discurso dos

participantes, traçando pontos em comum e dissonantes sobre o assunto pesquisado.

A 2ª analise é individual, onde se analisa com cuidado a fala do sujeito, a fim de identificar

as contradições em sua fala.

Por exemplo, se um pai afirma que ser homossexual e exercer a paternidade não parece

trazer maiores dificuldades, pois antes de ter sua orientação sexual diferente da maioria,

ele é pai igual a qualquer outro, mas, logo depois, este mesmo sujeito afirma ter receio de

possíveis dificuldades em relação à adolescência de seu filho (e as explicações que teriam

de ser dadas), temos aí uma contradição e conflito psicológico em sua fala.

Para sabermos se este conflito é comum ao grupo pesquisado, faz-se a analise

interparticipantes, onde todas as entrevistas são comparadas. Caso constate-se o mesmo

conflito na fala da maioria dos entrevistados, temos em mãos, possivelmente, uma

transformação social em curso.

Pois bem, em todas as minhas entrevistas-piloto (foram quatro) os sujeitosafirmavam estar muito seguros de sua paternidade e que não haveria maioresproblemas na criação dos filhos, pois os direitos dos homossexuais já são bemmais observados.

Logo depois, estes mesmo participantes vacilavam ao abordar o tema da sexualidade dos filhos e se tinham receios em influenciá-la. Todos responderam que têm temor que isto aconteça, pois a paternidade homossexual é diferente (todos os sujeitos usaram este termo) da heterossexual. Claramente, através destas respostas, é fácil perceber que temos aqui uma mudança de paradigma em nossa sociedade, onde os homossexuais têm mais liberdade, mas ainda parecem trazer valores tradicionais muito fortes com eles e isto está claro nos conflitos e contradições de meus entrevistados, detectados através da analise interparticipantes.

O roteiro também é outro ponto interessante a se observar no MEDS.

Ao invés de perguntas já prontas, o MEDS opta acertadamente por um roteiro, onde tópicos são listados e, através deles, são feitas perguntas semi-estruturadas, pois assim é possível dar ao entrevistado liberdade para falar o que ele realmente sente e, através de seu discurso, captarmos o sentimento por trás de suas palavras.. Perguntas de aprofundamento são necessárias somente quando percebermos algum ponto que mereça nossa atenção. Através delas, pode-se ter mais informações sobre aspectos mais delicados do tema abordado.

No meu trabalho, faço exatamente assim.

Listo tópicos que devem ser abordados e, com eles em mente faço perguntas abertas e deixo os entrevistados falarem.

Os principais tópicos que eu listei nas entrevistas-piloto foram, em ordem:

Como é ser um pai homossexual;

A Rotina do casal com os filhos;

Divisão de tarefas dentro dessa rotina;

Preconceito;

Vida social dos filhos e do casal

Estes tópicos não precisam ser abordados em ordem. Se o pesquisador perceber que o participante já falou determinado assunto, não se deve repeti-lo e, se um tópico que estava programado para ser abordado posteriormente, surgir na fala do sujeito, este deve ser explorado.

Explorando mais um pouco a minha pesquisa propriamente dita, fiz quatro entrevistas-pilto, como já mencionei, com casais de homens (antes havia feito com mulheres, mas preferi descartar este grupo para o Mestrado), de camadas médias da zona sul carioca, entre 25 e 45 anos que vivem relacionamentos estáveis há mais de dois anos, com filhos adotados. Não usei casais que vieram de casamentos heterossexuais, por acreditar que façam parte de uma amostra bastante distinta da qual eu me propus a estudar.

Usando as análises intra e interparticipantes nas entrevistas –piloto, pude constatar

pontos em comum em todos os casais, a saber:

Religião: ensinar ou não aos filhos (e como fazê-lo) a acreditar em um Deus que condena, com maior ou menor veemência dependendo da religião, o que papai e papai ou mamãe e mamãe fazem entre os lençóis;

Social: elaborar respostas e estratégias de escape aos argumentos psicologizados de que faltará ao filho a figura paterna ou materna, ou de que este crescerá em um ambiente degradante que poderia “contaminá-lo”.

-Dinâmica Familiar: todos apontam para uma preocupação no sentido de como lidar com a conjugalidade homossexual e a reação do filho/a e da aceitação desta conjugalidade e dos filhos no seio familiar e em seu circulo social.

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Comments on: "A Pesquisa Qualitativa e o Estudo da Homoparentalidade" (2)

  1. Parabens!! Seu trabalho é muito bom !! e obrigado por disponibiliza-lo para todos nós !! grande abraço !!

  2. alberto carneiro said:

    obrigado! É dever meu, não só como psicólogo social, mas como cidadão. Abraçao!

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