Alberto Carneiro, CRP-32710/05 , Master's Degree in Clinical Psychology and e PhD ( in course) in Public Health (FIOCRUZ- Brazil) and internship at University of Windsor, Canadá.

Archive for July, 2007

VII RAM

A VII RAM, da qual participei, em Porto alegre, foi um sucesso. Os trabalhos no GT do qual eu estava inscrito foram todos de alto nivel acadêmico. Particularmente a apresentação da psicanalista Elizabeth Zambrano me impressionou muito bem, na qual ela dissertou a respeito da ocorrência do tema HOMOPARENTALIDADE e HOMOSSEXUALIDE em nossa sociedade, seja em meios acadêmicos quanto leigos. Muito interessante!Eu falei sobre a homoparentalidade, questionando a noção de alteridade associada a esta configuração familiar… enfim.VII RAM..foi ótimo! Parabens a tod@s nós!!

A Pesquisa Qualitativa e o Estudo da Homoparentalidade

Durante meu Mestrado tive contato com o Método de Explicação do Discurso Subjacente (MEDS), que em muito contribuiu para direcionar minha pesquisa de campo a respeito da homoparentalidade e acredito ser este um excelente método, por isso resolvi postar neste Blog.

Por ter um tema considerado ainda por muitos como “polêmico” e “delicado” é fundamental que eu mantenha um método de trabalho o mais isento possível a fim de obter bons resultados na pesquisa.

Para tanto, o “MEDS” parece ser a forma mais adequada de trabalho. Um mundo em constante mudança, não há possibilidade de não haver conflitos e por isso, iniciar este trabalho sem tecer hipóteses sobre um assunto que gera calorosos debates tanto no meio acadêmico quanto fora dele, é de vital importância.

Segundo este método, a língua que falamos, quando internalizada, traduz regras e valores do grupo social do entrevistado e ouvi-lo com atenção, por si só, já é um grande passo para se pesquisar um vasto material sem entrar necessariamente em teorias (e às vezes, justificam, na verdade, a chegada à hipótese que o “pesquisador” procura, veladamente ou não, defender) que explicariam a fala do entrevistado. Por isso, acredito que o MEDS deve ser usado em meu trabalho, uma vez que acredito que a forma de vermos o mundo é socialmente construída.

Um aspecto que me chamou atenção no MEDS foi a grande importância dada às entrevias-piloto e a forma destas, baseadas em conversas informais, já que se algo for importante para o participante, o tema aparecerá durante seu discurso.

Quanto aos objetivos do método, podemos citar o genérico e o específico.

O objetivo genérico seria o de ouvir com atenção o sujeito e deixá-lo falar da forma mais livre possível.

Os objetivos específicos são conhecer as crenças, opiniões etc destes sujeitos e trazer à tona possíveis conflitos e contradições em seu discurso.

Quanto a este ultimo, gostaria de me deter um pouco mais, pois me foi útil já na fase

embrionária de minha pesquisa.

Para identificar estes possíveis conflitos, lança-se mão de duas análises de discurso: a

interparticipantes e a intraparticipantes, onde a 1ª é usada comparar o discurso dos

participantes, traçando pontos em comum e dissonantes sobre o assunto pesquisado.

A 2ª analise é individual, onde se analisa com cuidado a fala do sujeito, a fim de identificar

as contradições em sua fala.

Por exemplo, se um pai afirma que ser homossexual e exercer a paternidade não parece

trazer maiores dificuldades, pois antes de ter sua orientação sexual diferente da maioria,

ele é pai igual a qualquer outro, mas, logo depois, este mesmo sujeito afirma ter receio de

possíveis dificuldades em relação à adolescência de seu filho (e as explicações que teriam

de ser dadas), temos aí uma contradição e conflito psicológico em sua fala.

Para sabermos se este conflito é comum ao grupo pesquisado, faz-se a analise

interparticipantes, onde todas as entrevistas são comparadas. Caso constate-se o mesmo

conflito na fala da maioria dos entrevistados, temos em mãos, possivelmente, uma

transformação social em curso.

Pois bem, em todas as minhas entrevistas-piloto (foram quatro) os sujeitosafirmavam estar muito seguros de sua paternidade e que não haveria maioresproblemas na criação dos filhos, pois os direitos dos homossexuais já são bemmais observados.

Logo depois, estes mesmo participantes vacilavam ao abordar o tema da sexualidade dos filhos e se tinham receios em influenciá-la. Todos responderam que têm temor que isto aconteça, pois a paternidade homossexual é diferente (todos os sujeitos usaram este termo) da heterossexual. Claramente, através destas respostas, é fácil perceber que temos aqui uma mudança de paradigma em nossa sociedade, onde os homossexuais têm mais liberdade, mas ainda parecem trazer valores tradicionais muito fortes com eles e isto está claro nos conflitos e contradições de meus entrevistados, detectados através da analise interparticipantes.

O roteiro também é outro ponto interessante a se observar no MEDS.

Ao invés de perguntas já prontas, o MEDS opta acertadamente por um roteiro, onde tópicos são listados e, através deles, são feitas perguntas semi-estruturadas, pois assim é possível dar ao entrevistado liberdade para falar o que ele realmente sente e, através de seu discurso, captarmos o sentimento por trás de suas palavras.. Perguntas de aprofundamento são necessárias somente quando percebermos algum ponto que mereça nossa atenção. Através delas, pode-se ter mais informações sobre aspectos mais delicados do tema abordado.

No meu trabalho, faço exatamente assim.

Listo tópicos que devem ser abordados e, com eles em mente faço perguntas abertas e deixo os entrevistados falarem.

Os principais tópicos que eu listei nas entrevistas-piloto foram, em ordem:

Como é ser um pai homossexual;

A Rotina do casal com os filhos;

Divisão de tarefas dentro dessa rotina;

Preconceito;

Vida social dos filhos e do casal

Estes tópicos não precisam ser abordados em ordem. Se o pesquisador perceber que o participante já falou determinado assunto, não se deve repeti-lo e, se um tópico que estava programado para ser abordado posteriormente, surgir na fala do sujeito, este deve ser explorado.

Explorando mais um pouco a minha pesquisa propriamente dita, fiz quatro entrevistas-pilto, como já mencionei, com casais de homens (antes havia feito com mulheres, mas preferi descartar este grupo para o Mestrado), de camadas médias da zona sul carioca, entre 25 e 45 anos que vivem relacionamentos estáveis há mais de dois anos, com filhos adotados. Não usei casais que vieram de casamentos heterossexuais, por acreditar que façam parte de uma amostra bastante distinta da qual eu me propus a estudar.

Usando as análises intra e interparticipantes nas entrevistas –piloto, pude constatar

pontos em comum em todos os casais, a saber:

Religião: ensinar ou não aos filhos (e como fazê-lo) a acreditar em um Deus que condena, com maior ou menor veemência dependendo da religião, o que papai e papai ou mamãe e mamãe fazem entre os lençóis;

Social: elaborar respostas e estratégias de escape aos argumentos psicologizados de que faltará ao filho a figura paterna ou materna, ou de que este crescerá em um ambiente degradante que poderia “contaminá-lo”.

-Dinâmica Familiar: todos apontam para uma preocupação no sentido de como lidar com a conjugalidade homossexual e a reação do filho/a e da aceitação desta conjugalidade e dos filhos no seio familiar e em seu circulo social.

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homofobia? O que é isto?

homofobia? O que é isto?

A Família

A família nuclear, tal qual a concebemos hoje, se constituiu ao longo dos séculos XVI ao XVIII e teve como uma das bases de sustentação a diferença sexual e a proibição do incesto entre outros interditos. A partir disso, é possível compreender a elaboração do amor romântico no século XIX, que regia a ordem social da época e libertou o vínculo conjugal de laços de parentescos mais amplos. Com a invenção da pílula anticoncepcional e do preservativo a  sexualidade passa  a não estar ligada necessariamente à reprodução e a concepção passa a ser artificialmente produzida, mais que apenas artificialmente inibida: a sexualidade fica afinal plenamente autônoma, fazendo com que a família passasse por diversas mudanças.

Portanto, para que possamos entender a diversidade das relações em nossa sociedade e a maneira como estas se transformam, é importante estudarmos os novos arranjos familiares e, entre eles,  a paternidade homossexual, que já é uma realidade na sociedade ocidental contemporânea.  A questão central deste post está relacionada exatamente à relevância da legitimação social da homoparentalidade e se a falta desta legitimação afeta a dinâmica familiar. Tendo em vista que a conjugalidade homossexual apresenta uma grande diversidade, escolhi como foco de minha pesquisa qualitativa em meu Mestrado apenas casais masculinos (seis ao todo),  em união estável há mais de dois anos, com ao menos um (a) filho (a) adotado (a) e sem filhos gerados em relacionamento heterossexual anterior. Justifico minha escolha através de alguns dados já obtidos, como o  fato de que nos casais que não trazem filhos de outros casamentos, os pais parecem ter  um discurso já articulado, e a criança cresce sabendo que tem dois pais ou duas mães, Além disso, nestes  casos, com freqüência a orientação sexual dos pais parece não ser segredo na escola dos filhos, no círculo familiar e, às vezes, até no profissional, sendo esta situação bastante diferente daquela em que  o filho viveu anteriormente em uma família heterossexual. Para realizar este trabalho desenvolvo uma pesquisa de campo sobre histórias de vida destes casais, usando entrevistas com perguntas semi-estruturadas, investigando questões tais como as dificuldades de formar uma família homoparental , como esta família lida com o preconceito e a auto-imagem dos pais homossexuais em relação ao papel exercido.

Com isso, procuro contribuir para um melhor entendimento desta nova forma de estrutura familiar, assim como estimular o debate na academia de um tema ainda pouco explorado.

Alberto Carneiro

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A Trajetória da Família Ocidental e a Maternidade Lésbica

As lésbicas que decidem articular sua sexualidade com a maternidade acabam por ficar socialmente mais vulneráveis, pois a sociedade considera as duas práticas como incompatíveis e esta dinâmica pode ser mais bem explicada se fizermos uma breve incursão na trajetória da família ocidental ao longo da historia.

A família nuclear, tal qual a concebemos hoje em dia, se constituiu ao longo dos séculos XVI ao XVIII e teve como uma das bases de sustentação a diferença sexual, com a mulher absolutamente submissa.

A partir do século XIX, temos o surgimento do amor romântico, que passa a reger a ordem social da época e a libertar o vínculo conjugal de laços de parentescos mais amplos (Giddens, 1994).

Mais tarde, a sexualidade começava a não estar ligada necessariamente à reprodução, principalmente depois da invenção da pílula anticoncepcional. A concepção já podia ser artificialmente produzida, mais que apenas artificialmente inibida, e a sexualidade ficava afinal plenamente autônoma, o que obrigou a sociedade a resignificar o papel da mulher, tanto no âmbito privado quanto publico, com conseqüências na formação e constituição da família.

Visto isso, podemos dizer que existem três fases na historia da família ocidental, todas diretamente ligadas “a trajetória da mulher e suas conquistas : a primeira, que vai até o final do século XVIII, chamada de família tradicional, que tinha como principal função a manutenção e transmissão do patrimônio e a prática comum de um ofício, passado através das gerações, não tendo função afetiva” (Roudinesco,2002). Baseada na teoria monarquista do Direito Divino, o homem era autoridade máxima no lar, pois a família deveria agir em obediência à palavra de Deus, que ordenara o mundo de tal forma imutável e dogmática, que cabia às mulheres apenas obedecer e servir. (Ariès, 1981).

A vida sexual e afetiva feminina era desconsiderada, mesmo porque os casamentos, para fins de manutenção e transmissão do dote, aconteciam em idades muito precoces e a mulher era apenas um instrumento da família para manutenção de riqueza e poder.

Assim como na religião, na família perpetuava a soberania do homem de forma tão inquestionável que, se a mulher se comportasse de forma diferente de como era esperado, ou seja, algo além do servir e procriar, poderia ser condenada nos tribunais da inquisição como bruxa ou feiticeira, e, para tanto, o poder patriarcal mantinha sob forte vigilância o comportamento das filhas e esposas. O prazer sexual ou qualquer outro desejo, como estudar ou trabalhar, não eram sequer considerados.

Ainda que o modelo de família tradicional tenha entrado em decadência no final do século XVIII, a soberania paterna e a submissão feminina não perderam seu lugar até o fim do século XIX, tendo sobrevivido inclusive às profundas mudanças sociais que a revoluções Francesa e Industrial impuseram à Europa.

Um segundo período da evolução da família data do final do século XVIII até metade do século XX, onde a família entra em sua fase de “amor romântico”, ou seja, as relações passam a ser pautadas nos sentimentos e na sexualidade, sendo legitimadas pelo matrimônio, iniciando um lento processo de dessacralização da instituição familiar e valorização da mulher. Com isso, a educação dos filhos passa a ser também obrigação do governo e o poder patriarcal absoluto inicia sua decadência.

O Estado entra nos lares e começa a substituir, aos poucos, o poder do homem em várias de suas atribuições a fim de obter maior controle social Conseqüentemente, este deixou de ser absoluto e a dependência da mulher ao marido é questionada, uma vez que o homem deveria ser justo, valorizando a esposa, a fim de responder ao lema de Igualdade e Fraternidade do novo Estado Burguês.

São claros, portanto, os efeitos da Revolução Francesa, destituindo a Monarquia e abolindo o Direito Divino, com suas repercussões na estrutura da família nuclear e decadência do poder patriarcal. Soma-se a isso, o advento da Revolução Industrial, que gerou a necessidade de uma maior mão-de-obra masculina nas fábricas, contribuindo para o processo de fortalecimento do papel da mulher dentro e fora de casa , criando uma divisão do trabalho entre o Governo e os homens, na esfera publica, e entre homens e mulheres, na esfera privada.

Nesta nova fase, o casamento é sustentado pela afetividade e durará apenas enquanto esta existir, possibilitando a entrada em cena do divorcio, adotado oficialmente na França a partir de 1884, fortalecendo o papel da mulher no lar.

Outra mudança que esta nova ordem familiar traz diz respeito aos direitos dos filhos a ter uma família, fossem legítimos ou não. Assim, cria-se o instrumento da maternidade adotiva, onde filhos adotivos eram criados por famílias substitutas lideradas por mulheres descasadas ou mesmo solteiras , e passavam a gozar dos mesmos direitos da prole natural.

Sob influência da psicanálise e da própria modernidade, surge, na segunda metade do século XX, a família contemporânea, ou pós-moderna. Os divórcios aumentam, a autoridade paterna é questionada em todos os seus aspectos, a sexualidade da mulher é mais respeitada e o casamento passa a ter sentido somente na medida em que há uma busca pelo prazer e pela completude em ambos os sexos, se desfazendo quando estas buscas não mais existirem. Isto implica, como já dissemos, na desvinculação do prazer sexual em relação à procriação, dando mais poder á mulher e abrindo as postas para arranjos familiares os mais diversos, entre eles, o homossexual que, com a instituição da adoção e das técnicas de inseminação artificial, abre caminho para o direito à maternidade homossexual.

Hoje em dia, o casamento se transformou, sobretudo, no espaço simbólico da sexualidade socialmente reconhecida. Esta é a razão pala qual os novos arranjos familiares com orientação homossexual e a própria homoparentalidade é tão criticada pelos setores mais conservadores da sociedade já que, na pós-modernidade, não é a consumação do ato sexual, mas, antes, o consentimento entre as partes que constituem a substância desta instituição.

Recapitulando, vimos que, com a pílula anticoncepcional e a saída da mulher para o mercado de trabalho, esta alcança maior independência econômica, passando a não aceitar ser dependente do marido. Por outro lado, seu tempo para os filhos encurtou e sua relação com eles se modificou: muitas funções são hoje delegadas à escola e às babás e ela se preocupou em melhorar a qualidade do tempo que passa com os filhos. Uma conseqüência disto foi o aumento de casamentos com famílias aonde os cônjuges vêm de outros casamentos, já com filhos e a desconstruçao do modelo ideal de família nuclear.

Tudo isso causou grande impacto nas relações heterossexuais, que se mantinham como centralizadoras da normatização, além de portadoras da garantia de maior estabilidade, em função do casamento tradicionalmente instituído e legitimado pela legislação e pela sociedade como um todo. Porém, com a desconstrução da justificativa biológica para a heterossexualidade como sendo a escolha normal, o que costumava ser chamado de perversões passa a ser diferentes formas de como a sexualidade de cada um possa ser legitimamente revelada e a auto-identidade, da mesma forma, definida (Giddens, 1994). Assim, surge, entre outras, a conjugalidade homossexual. Dizemos “surge”, pois foi somente após o deslocamento das relações heterossexuais como única possibilidade legitimada pela sociedade de formação de uma família ou mesmo de um casal, é que as relações homossexuais começam a sair da marginalidade. Soma-se a isso a maior visibilidade da mulher homossexual e a crescente discussão a respeito da homoparentalidade lésbica, principalmente após a morte de Cássia Ellere das conquistas de lésbicas em obter a quarda definitiva de seus filhos, que acabaram por enfraquecer a idéia de normalidade sexual.

Dessa forma, novas práticas sociais surgem à medida que ocorre a associação entre maternidade e homossexualidade, como a maior conquista do espaço social pelas mulheres acentuando ainda mais a crise masculina que vimos ao longo deste trabalho, uma vez que, ao ocupar esferas sociais, antes exclusivamente masculinas, expõe uma ruptura no modelo hegemônico do poder do homem, levando-o a uma busca incessante pela redefinição do seu papel. Dessa forma, para a mulher assumir a homossexualidade nesse universo machista e conservador em que vivemos e, ao mesmo tempo optar pela maternidade, é necessário percorrer um árduo caminho, onde uma das saídas parece ser a luta pela busca da cidadania plena e consolidação dos direitos da mulher, na qual a orientação sexual não represente motivo de exclusão dentro do processo da dinâmica social. Uma das formas de se caminhar nesta direção parece ser a de compreender que a sexualidade em si é um fenômeno socialmente construído e, assim como já superamos a época em que era exigido que a mulher cultivasse sua pureza para obter algum ganho social, é importante que percebamos a sexualidade como menos ligada à questão de gênero, com a conseqüente maior liberdade econômica e social da mulher, desvinculando-se da obrigatoriedade de vincular-se a um homem, independente de sua própria orientação sexual, para exercer a maternidade e questionando, assim, uma sociedade heterocentrista, que coloca esta orientação como normativa.

Cpncluindo, uma das grandes diferenças que a maternidade lésbica traz é o fato de ser comum não haver laços sangüíneos ou mesmo legais, o que parece facilitar uma maior cumplicidade no compartilhamento de responsabilidades comuns , além de não haver papéis de gênero definidos, tais como a mãe que cuida do lar e o pai que sustenta a casa e dá as ordens, sendo ambas as companheiras responsáveis pelo bem-estar físico-emocional dos filhos.

A escolha em relação à forma pela qual se quer ter um filho e o momento certo para isso também é característica deste arranjo familiar.

A maternidade lesbica, aos poucos, começa a ganhar legitimidade social , uma vez que as relações e as instituições sociais (como a maternidade propriamente dita e a família) estão sempre em processo de mudança, e esta não acontece de uma hora para outra ou pela imposição absoluta do novo. Dá-se, antes, pela recodificação de antigos paradigmas e interditos e pela reestruturação dos papéis da mulher na sociedade como um todo.

O que parece estar acontecendo com a maternidade é semelhante ao que vem acontecendo com o gênero, quando, por exemplo, se torna mais aceitável, e mesmo desejável, que homens cumpram tarefas domésticas ou cuidem das crianças em uma família de estrutura heterossexual e que mulheres trabalhem e ate mesmo sustentem seus maridos.

A homoparentalidade, de forma similar, surge como um instituinte de um novo arranjo familiar pós-modernoe se diferencia bastante do meodelo tradiconal de família visto no início deste trabalho. Podemos ainda dizer que a conjugalidade lesbica se caracteriza por ser mais livres e menos comprometida em relação às cobranças sociais, pois muitas não são reconhecidas publicamente, mas, nem por isso, menos estável.

Uma conseqüência disso seria a baixa coercitividade sobre a manutenção do vínculo conjugal por conveniência ou pressão social, uma vez que as configurações familiares baseadas na conjugalidade homoerótica parecem concentrar certas tendências presentes em contextos marcados por processos de modernização (Tarnovski, 2002).

Outra característica da conjugalidade homossexual feminina é a sólida noção de companheirismo, e um considerável nível de igualdade construído na relação, baseado principalmente na amizade e cumplicidade das parceiras.

Neste tipo de relação, a monogamia ou mesmo a sobrevivência do relacionamento está sujeita ao desejo das duas mulheres, e durará até o ponto em que elas a considerem desejável, aproximando-se bastante do que Giddens (1994) chamou de amor confluente, onde o que se procura não é um amor especial, mas um relacionamento que se tenha igualdade entre as parceiras e reconhecimento de suas diferenças e aceitação da diversidade, mesmo dentro da relação, a partir da exploração da intimidade. Por isso a monogamia não é valor essencial à sobrevivência do relacionamento, não excluindo a possibilidade dela estar presente, embora seja bem mais comum do que nos casais homossexuais masculinos. A conjugalidade lésbica possibilita “a expressão social da intimidade transformada, isto é, novos posicionamentos subjetivos que são compartilhados no plano dos relacionamentos amorosos” (Passarelli, 1998, pág 70).

Referências Bibliográficas:

ARIÉS, P. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara/Koogan, 1978;

COSTA, J.F. A inocência e o vício. Estudos sobre o homoerotismo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2002;

DUARTE, L. F. D. “A sexualidade nas Ciências Sociais: leitura crítica das convenções”. Seminário Sexualidades e Saberes: convenções e fronteiras. Unicamp, Campinas, junho de 2003;

__________. “O império dos sentidos: sensibilidade, sensualidade e sexualidade na cultura ocidental moderna”. In: Heilborn, M. L. (org.) Sexualidade. O olhar das Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999;

EUGENIO, F. Entre fenômenos e fluxos. Estética, amor e amizade nos universos gay e moderninho da zona sul carioca. (paper) Seminário Culturas Jovens e Novas Sensibilidades, UCAM, Rio de Janeiro, agosto de 2003;

FOUCAULT, M. História da Sexualidade I. A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 2001;

HEILBORN, M. L. “Ser ou estar homossexual: dilemas de construção de identidade social”. In: Parker, R. e Barbosa, R.M. e (orgs.) Sexualidades Brasileiras. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1996;

POLLAK, M. “Homossexualidade masculina ou: a felicidade no gueto?”. In: Ariès, P. e Bejin, A. (orgs.) Sexualidades Ocidentais.contribuições para a história e para a sociologia da sexualidade. São Paulo: Brasiliense, 1985

ROUDINESCO, E. A família em desordem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003;

UZIEL, A. P. “Conjugalidade, parentalidade e homossexualidade”. In: Saúde, Sexo e Educação, pp. 37-41;

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Gays e Lésbicas devem ter Direito à Parentalidade?

A crença de que casais gays ou lésbicos fazem parte de um arranjo familiar chamado alternativo parece ser questionável, pois para que algo seja alternativo, terá de sê-lo em relação à um modelo, um padrão à ser seguido pela maioria.  

Contudo, as configurações familiares baseadas na conjugalidade homoerótica parecem “concentrar certas tendências presentes em contextos marcados por processos de modernização e (…) seus atores seriam os verdadeiros sujeitos da família pós-moderna, com sua ênfase na afeição e na escolha” (Tarnovski, 2002). Esta tendência de que fala Tarnovski pode ser trazida inclusive para a parentalidade, pois, segundo Áries (1981), “é a criança, erigida em personagem central da cena familiar, que constrói o sentido de família, e que nada mais é do que a culminação das tendências históricas”.

O casal homossexual traz a novidade, portanto, de uma filiação que não está baseada na reprodução, onde o “pai, assim reconhecido, transmite um lugar social, juridicamente definido, regulando direitos e obrigações. O companheiro (…) também se constitui num canal de transmissão, mas sobre uma base afetiva” (Tarnovski, 2002), seguindo os moldes das famílias pós –modernas, onde o afeto é o elo principal de união entre seus membros. Estamos saindo da família nuclear e entrando em uma sociedade que sinaliza à pluralidade de organizações familiares.Esta forma de conjugalidade contemporânea não tem qualquer pretensão de subverter a principal lei do parentesco em nossa cultura, a saber, a proibição do incesto, uma vez que a pedofilia seria uma das razões pelas quais a sociedade desaprovaria a parentalidade homossexual.Contudo, esta patologia nada tem de relação direta com a orientação homossexual, além de a maioria dos crimes de pedofilia serem praticados por homens heterossexuais contra meninas.

Da mesma forma, é importante perceber que a família é uma instituição que se transforma, pois está nesta mesma sociedade e, sendo ela a célula que forma o corpo social, não é imutável, intocável ou estática. Esta característica de transformação da família, que começou com a noção de linhagem na Idade Média, até o núcleo homoparental do inicio do século XXI, não deve ser confundida com crise. A família não está em crise ou jamais esteve, pois “ela é amada, sonhada e desejada por homens, mulheres e crianças de todas as idades, de todas as orientações sexuais e de todas as condições, e todas as pesquisas sociológicas mostram isso” (Roudinesco, 2002).

 Portanto, casais gays não devem ser vistos como um “sinal de decadência dos valores familiares”, mas antes, como uma evolução natural do conceito de família. E o desejo de gays e lésbicas ser pais e mães é legítimo e deve ser respeitado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
TARNOVSKI, Flávio Luiz, PAIS ASSUMIDOS: adoção e paternidade homossexual no Brasil contemporâneo, 2002, Florianópolis, UFSC, Dissertação de Mestrado 114 páginas.
ROUDINESCO, Elisabeth,. A família em desordem. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003. 199 p. ISBN 8571107009.
ARIÈS, Phillipe, Historia Social da Criança. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.
2a edição.